Um recomeço não pode
ser diferente do que recomeçar a si mesmo. As vezes é impossível deixar o
velho, descarregar as malas. É como se tirasse algum órgão importante para você
e não houvesse reposição, mas se continuar com ele, ele te mata aos poucos.
Assim me sentia: alguém
que carregava um câncer. Precisava me livrar dele, mas não encontrava remédios
para isso. Meu câncer estava em minhas lembranças. Se alimentava de partes
importantes, mas cheias de dor. E me consumia, dia a dia, sem hesitar. E sem
cerimônias, fazia-se presente, alardeando em todos os cantos dentro de mim sua
experiência em me detonar.
Às vezes acho que havia
um saudosismo em sofrer. Como se o alimento fosse esse: a dor. Em outros
momentos, penso que a destruição fora maior do que realmente acreditei por
algum tempo.
Não sei ao certo. Já
não era o outro que me matava, mas eu mesma.
Decidi viver. Curar a
ferida que eu relutava em manter aberta. Não sei dizer qual foi o medicamento
eficaz, ou que não terei recaídas, mas sei o que quero agora.
O importante é deixar o
tempo ajudar. Deixei o tempo cuidar um pouco de mim. Perfiz os caminhos
lentamente, interiormente, para que pudesse avaliar cada passo e deixa-los para
trás. Hoje, não caminho mais naqueles percursos. Nem me faço planos como os de
antes, agora a vida solicita novas jornadas e novas posturas. E também menos
cobranças. Deixei o tempo passar para resgatar a mim, a o que era e para me
tornar o que posso ser.
Minhas expectativas
para o futuro se baseiam unicamente nos passos que posso dar sozinha. O
restante, eu deixo pra quando o futuro chegar. Não o adianto, e nem o espero,
deixo apenas que aconteça.