18 de agosto de 2015

Cativar


Li agora a pouco uma frase de O Pequeno Príncipe : " a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar..." Acho que, na verdade, a gente corre o risco de chorar um pouco quando não se deixa cativar. Quando deixamos de permitir que o outro apenas seja. Quando queremos ser correspondidos em nossas expectativas. Cativar, talvez, seja esperar simplesmente o que pode vir a nós. Deixar espaço para sermos e para serem. Simplesmente. Ser criações unilaterais movidas por uma carência de si mesmo. Até onde vai a nossa escolha de nos deixarmos cativar? Até onde podemos permitir ao outro ser quem ele é e não o reflexo do que torcemos para a vida nos trazer?

E não coloco aqui aquela coisa do apenas se doar e tudo certo. Ou aquela coisa do vibre positivamente que o universo também vibrará a você - o que até certo ponto considero ser a verdade - coloco aqui a necessidade que temos de querer que o outro seja o que queremos dele. E quase chega a ser um mantra interno, entoado progressiva e recorrentemente (e inconscientemente quase sempre).

Seria mais pratico apenas criar expectativas sobre como podemos ser no dia de amanhã, sabe, criar expectativas sobre o que está sob nosso controle: nós mesmos. O resto... Deixa ser. 

E então, se deixar cativar poderia ser uma experiência única. Onde o que foi não nos faça chorar em momento algum, pois na verdade, a alegria é ter interagido, termos nos alterado em essência, no contato com o outro. Talvez, choremos por ter-nos perdido ali. Porque o que dói, na verdade, é a sensação de que ainda não tenha encontrado a si. E quando os caminhos são percorridos apenas do lado de fora, é difícil encontrar o destino dentro de nós.

O princepezinho me cativou, sim, e por muito tempo. E continua cativando meu olhar sobre as emoções e sobre as escolhas. Mas hoje, de maneira diferente de quando tinha menos de dez ano ao observa-lo pela primeira vez, o princepezinho me mostra que a gente complica demais as coisas. Que a gente pode simplesmente ser e deixar ser. E que assim, podemos percorrer os caminhos dentro de nós mesmos e deixar os destinos internos nos guiarem sem medo pelos caminhos externos.

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